Mais de 200 famílias abandonadas pelo Governo num campo de acolhimento improvisado no Golf2

No Kilimba Kiaxi, Administração local abandonou mais de 265 famílias, desde 2007 por detrás da Igreja Maná . As famílias provenientes dos bairros Havemos de Voltar, Camama, Golfo, Neves Bendinha, Vila Estoril e Palanca, sentem-se abandonadas pelo governo, e dizem que foram obrigadas a viver em condições precárias, depois de verem as suas casas destruídas pelas chuvas que se abateram por Luanda em 2007.

NMC

Na Mira do Crime

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Mais de 265 famílias vivem num sem as mínimas condições de biossegurança, num centro improvisado de acolhimento, apelidado de  “Sinistrados na Maná”, localizado por trás do supermercado Ango Mart, no bairro do golfo 2, em Luanda.

As famílias provenientes dos bairros Havemos de Voltar, Camama, Golfo, Neves Bendinha, Vila Estoril e Palanca, sentem-se abandonadas pelo governo, e dizem que foram obrigadas a viver em condições precárias, depois de verem as suas casas destruídas pelas chuvas que se abateram por Luanda em 2007.

Os desabrigados dividem os seus casebres  com cobras, lagartos. O cheiro nauseabundo que caracteriza o ambiente dos sinistrados, é proveniente de um espaço baldio, a céu aberto, onde defecam por falta de casas de banho.

“No dia 22 de Janeiro, depois das fortes chuvas que assolaram Luanda, e que causou a destruição de várias casas, tendo desalojado mais de 836 famílias, fomos colocados neste local pelo governo”, disse Carlos Keita, coordenador do centro.

“Estamos a viver um momento difícil, aliado a pandemia da covi-19. Já pedimos muito, em 2009 foi levado para o Zango 3 um grupo de 57 famílias. A segunda vez, em 2010, foram 150 famílias, somos os últimos que aguardam por habitação”, lembrou.

Para o coordenador, existe má-fé por parte do governo em ajudar as famílias desfavorecidas.

“A actual governadora Joana Lina, durante a sua visita de constatação aos municípios, foi impedida de chegar aqui, para constatar pessoalmente a realidade deste povo. Onde está a intenção de melhorar o que está bem e corrigir o que anda mal”, questiona Carlos Keita.

Madalena Macongo, mãe de seis filhos, lamenta com profunda tristeza, ter que dormir com as filhas adultas num único quarto, e às vezes recorre as vizinhas para poder acomodar os rapazes.

“Somos solidárias, às vezes pedimos às vizinhas para acomodar as outras crianças, porque como mãe, é difícil dormir com filhos adultos”, lamenta com lágrimas nos olhos.

Administração chama sinistrados de fantasma?

“Somos cadastrados, temos documentos no governo provincial, não caímos de pára-quedas aqui, perdemos as nossas casas em 2007. Tudo que pedimos ao governo, é que olhe para nossa situação”, chorou, recordando que a administração local acusa-os de serem “fantasmas”.

Elizabeth Jacinto coordenadora adjunta dos provenientes da comuna da Camama, olha para a vertente humana, apelando a actual governadora a ter coragem e tratar dos pendentes dos antigos governadores.

“Sei que a actual governadora de Luanda é mulher, o seu lado humano é diferente dos antigos governadores, logo, sabe que  dormir nos bate-chapas com cobras nesta época do ano, e com Covid-19, é complicado”.

Falta-lhes tudo.

Há 13 anos nesta situação, sem terem uma casa de banho para atender as necessidades biológicas, pedem que a quem de direito para atender o pedido de socorro.

“As necessidades maiores tanto dos mais velhos como adultos, são feitas em sacos plásticos e jogadas atrás das cabanas. Falta-nos tudo, nem água para lavar as mãos para evitar possível contágio de Covid-19. É duro passar por estas dificuldades”, explicou um outro morador.

Diarreia e vómito é o prato da casa

“Diarreia e vómito é connosco, paludismo, malária e tantas outras doenças, que não sabemos como acudir por falta de assistência médica e medicamentosa faz parte do nosso dia-a-dia”, explicou Venâncio Paulo, apelando a compaixão da governadora Joana Lina.

Antigos governadores ignoraram sofrimento do povo

De acordo com os nossos entrevistados, o caso é do conhecimento do governo provincial, e acusam o antigo governador Bento Bento, Adriano Mendes de Carvalho, antigo vice para área social e António Resende, antigo responsável para Área Técnica do governo provincial de Luanda, de os terem criado dificuldades.

“No dia 15 de Dezembro de 2012, fomos convidados a abandonar as tendas pelos homens ao comando do antigo governador Bento Bento, retirando todos os nossos pertences, e prometendo casas”, recorda Carlos Keita.

“Depois de termos abandonado às tendas, ficamos a espera deles quatro dias, tal como haviam-nos prometido, o que não aconteceu, criando tumultos e um sentimento de revolta por parte do povo”, contou, acrescentando que, a partir daquele momento, começaram  a ser considerados como fantasmas.

“A Reinserção Social, o Governo Provincial, a administração do Kilamba-kiaxi conhecem este centro de acolhimento, mas ninguém quer saber de nós”.

Vale lembrar que, o Centro de Acolhimento aos Sinistrados da Maná, teve inicialmente 836 famílias desalojadas em 2007, sendo que deste número, 207 receberam as suas casas nas centralidades do Sequele e Zangos, em Luanda. Actualmente, encontram-se no centro 236 famílias.

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