Dívidas Ocultas Cuando Cubango: Júlio Bessa e Vera Daves queriam roubar os milhões do cofre de estado, dono da empresa diz que só lhe devem 4, 8 milhões

Conheça a verdade sobre as Dívidas Ocultas que chegaram a ser de 731 milhões de dólares no Cuando Cubango, com Governador Júlio Bessa e Ministra das Finanças Vera Daves a serem agora acusados de quererem desviar milhões do cofre de estado, com o dono da empresa a confirmar que só lhe devem 4, 8 milhões de dólares, PGR abriu investigação.

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VE/Lil Pasta

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O Proprietário da Angoskimas reconhece ter havido um erro “exorbitante” nos cálculos da dívida que a sua empresa exigia ao governo do Cuando-Cubango.

José Maria Zeferino assegura que a empresa existe há 35 anos e é bem conhecida por dirigentes do topo. Agora, só quer receber em kwanzas e admite ficar “agradecido com o que lhe quiserem dar para poder comer e beber um litro de vinho especial com a família na sua fazenda, no Huambo”.

Confira a Entrevista ao Jornal Valor Econômico que designamos por V.E e do empresário que vamos designar como JMZ.

VE: A Angoskimas só começou a funcionar em 1997 de acordo com os diários da República consultados pelo nosso jornal. Como explica a prestação de serviços antes de 1997?

JMZ: “A nossa empresa foi fundada em 1986 com o nome Empresa Industrial Kima Kima-Comércio Geral não especificado. Alterámos a designação de Kima Kima para Angoskimas, a 18 de Julho de 1997. O novo nome surgiu, de facto, em 1997. Nessa altura, a empresa deslocou-se do Cuando-Cubango para a capital, com o conhecimento de todos os dirigentes da província, com quem trabalhei de 1986 até 1997”, respindeu.

Adiantou ainda que “O comissário provincial do Cuando-Cubango, general Manuel Francisco Tuta ‘Batalha de Angola’, na altura tenente coronel. Havia os comissários-adjuntos Daniel Vapor, para área Económica e Social, de feliz memória que já não vive connosco, João de Sousa, para a área de Defesa e Segurança do Estado, o comissário provincial Skaess, que era tenente coronel, faleceu no Cazenga. Havia o comissário Manuel Dala e o governador Fernando Liwango. Ao abrigo dos acordos de paz de 1991, foi indicado pelo ex-Presidente da República, José Eduardo dos Santos, como governador provincial o general João Baptista Chindandi. Temos os governadores, o general Eusébio de Brito Teixeira, o general Higino Carneiro e o general Pedro Mutindi. E o governador Julio Marcelino Bessa, actual gestor do Cuando-Cubango. Para área do Comércio, tínhamos como delegado Jaime Tchinguembo, que passava credenciais às empresas. Foi substituído por José Cativa. Estes dirigentes conhecem muitíssimo bem a empresa Kima Kima. No pós-guerra, toda a documentação ficou nos gabinetes provinciais por onde passaram os conflitos para renovar a documentação. Surgiu a ideia da Angoskimas. A empresa tem toda a documentação nos cartórios” contou.

V.E: As pessoas que contactámos, que incluem gestores e empresários, disseram que não conhecem a empresa. Como explica isso?

JMZ: “Todos os dirigentes que evoquei são do tempo dos comissários provinciais que exerceram funções como comerciantes naquela província. Uns já partiram para a eternidade e outros já não se encontram na província. Eu saí do Cuando-Cubango, em 1997. Os dirigentes actuais não conhecem o historial da empresa. Muita gente conhece a empresa: a organização Nambulo Waposssoca, o deputado Chimuco, vários empresários. Todos eles existem. Recordo a primeira e última reunião que tivemos com o ex-Presidente José Eduardo dos Santos. Quando reunimos, com a mão direita dele, me encorajou e disse que a minha empresa estava a atender os militares na frente de combate. Dava 30 a 50 caixões para entregar ao Ministério da Defesa na 6ª região. Tudo passou pela minha empresa, de 1987 até 1992. Após os acordos é que começámos a trabalhar normalmente, mas as colunas continuaram. Temos todos documentos e várias facturas”

V.E: Além de fornecer bens aos ministérios da Defesa e do Comércio, fez algum outro negócio com outras instituições como Kima Kima e como Angoskimas?

JMZ: “No tempo da guerra, tanto o Ministério da Defesa como o governo provincial tinham uma única ordem. Nós, os comerciantes, recebíamos os papéis provenientes do gabinete do governador provincial. Você, como subordinado a receber um documento do gabinete mais alto da província, não tem nada que hesitar. Você regista numa factura. Os cuidados que tínhamos era fazer a factura e enviar ao gabinete económico do Cuando-Cubango. Só assim é que o governo foi buscar estas facturas. Por isso é que ainda existem estas facturas nos gabinetes dos governantes que passaram no Cuando-Cubango, de 1986 até 1997. Reunimos estas facturas e com elas tínhamos de recorrer, solicitar ou reclamar a nossa dívida. Eles confirmaram e assinaram para que estas facturas sejam liquidadas de acordo com o trabalho que fizemos”.

V.E: O que está a dizer é que, na altura, a empresa só fez negócios com entidades governamentais?

JMZ: “É mesmo isso. Por isso é que nos dirigimos ao governo provincial, a partir do governador Pedro Mutindi. O ex-governador Manuel Francisco Tuta ‘Batalha de Angola’ escreveu honestamente ao seu irmão de luta, Pedro Mutindi. Se for necessário, chego a Luanda e vou directamente à casa do governador ‘Batalha de Angola’. Ainda está em vida. O Mutindi também está em vida, quem morreu foi o Skaess. Os outros governantes, que viram o nosso sacrifício, também não morreram. O João Samba, que foi secretário de um dos governantes, também não morreu. Esteve comigo em Junho quando fui rectificar o erro que tinha nas facturas. E foi bem rectificado. Tenho 64 anos. Faltam poucos dias para viver. Porque é que me vão sacrificar? Não temos espírito de roubar o nosso Governo” disse.

V.E: Que cálculos é que foram feitos para a redução de 85% do valor da dívida pelo governo do Cuando-Cubango? Que tipo de erros é que continham para que se fizesse esta redução?

JMZ: “Não domino muito a matemática. O erro que encontrámos não foi feito por mim, mas pelo gabinete económico do Cuando-Cubango em 1997. É de uma factura de um grupo de 850 rolos de napa, que custavam 2,6 triliões de kwanzas. Este foi o erro que o Ministério das Finanças detectou e que me mandou corrigir. Eu oficialmente fui ao governo provincial e falei com os gestores e viram que o erro era exorbitante. Fizeram novos cálculos e deram-me a documentação para ultrapassar este constrangimento”.

V.E: Desde quando é que a Angoskimas comecou a reclamar a dívida?

JMZ: “Desde que ouvimos o comunicado do decreto presidencial de que todos os empresários, com dívidas com os governos, poderiam reclamar. Achávamos que o Governo não ia olhar por nós, mas soube reconhecer aqueles que o apoiaram nos conflitos”.

V.E: Que passos teve de dar para que a dívida fosse validada pelo Cuando-Cubango?

JMZ: “O antigo governador Pedro Mutindi recebeu a carta do seu homólogo, ‘Batalha de Angola’, que nos deu coragem para começarmos a escrever. Comecei a escrever e fui bem atendido. Temos as actas que elaborámos em conjunto”.

V.E: Com que governador começou?

JMZ: Foi com Pedro Mutindi que comecei a reclamar a dívida.

V.E: Em que ano?

JMZ: “Em 2018. Recorremos ao mano Francisco Tuta, porque ele já era comissário provincial e depois passou a governador. Quando viu o abandalhar pelos governantes, teve de fazer uma carta para reforçar a reclamação da nossa dívida. Ele conheceu a empresa e andámos juntos. Fomos abraçados pelo ex-Presidente de Angola. Por isso é que reforçou ao seu homólogo para não abandonar a reclamação da empresa”.

V.E: Depois desta carta, que ‘feedback’ receberam?

 

JMZ: “Primeiro, tínhamos de fazer uma reunião que resultou numa acta de reconciliação de dívida. Foi feita em 2019. Concluiu que existe uma dívida de 2,9 triliões de kwanzas e outra de 9,9 milhões de kwanzas, referentes ao período de 1992 a 1997”.

VE: Depois deste reconhecimento, que passos foram dados para a acta de reconhecimento de reunião de 16 de Junho com o actual governador do Cuando-Cubango?

JMZ: “Depois de o Ministério das Finanças mandar corrigir, fui ao Cuando- Cubango e com o secretário provincial elaborámos várias actas. Depois encaminharam para o Ministério das Finanças. Tenho fé de que o Ministério seja de boa fé e pense no sofrimento que passámos. Estou tranquilo e não tenho constrangimentos com o governo nem tão pouco com o Ministério”.

VE: Tem noção de que, antes de ser feita a correcção, a empresa estava a reclamar um valor equivalente à capitalização do Fundo Soberano de Angola, que era de 5 mil milhões de dólares ?

JMZ: Não domino as cláusulas do valor. Apenas tenho as facturas que passei para o gabinete do governo provincial. Nunca tratámos em moeda estrangeira. Nas nossas facturas, temos apenas a nossa moeda. Não sei se vão converter em dólares. Até não conheço dólar.

VE: A dívida reconhecida hoje é superior a 700 milhões de dólares… e agora?

JMZ: “Isso agora passa pelo critério do Ministério. Mas nós, como cidadãos angolanos e comerciantes do nosso país, o que nos derem, vamos agradecer. Mas gostávamos que nos dessem em kwanzas. Pode desvalorizar. O que queremos é que o Governo reconheça o nosso esforço”.

 

VE: O valor corrigido é de 439,5 mil milhões de kwanzas. Se for convertido em dólares são 731 milhões. Tem noção do valor da dívida que a empresa está a reclamar?

JMZ: “Não tenho nenhum cálculo sobre esta situação. Apenas quero que me dêem aquilo que quiserem dar em kwanzas. Não preciso ir além. Já sou mais velho e já não tenho como gozar este dinheiro. Penso só estar na mata, na minha fazenda, a cuidar dos animais. O resto, com a minha família, vamos começar a rir e beber o nosso copo de vinho”.

VE: Documentos que chegaram até ao jornal dão conta que umas das empresas tinha reduzido o valor da dívida para 2,9 mil milhões tendo em conta o kwanza actual. Como diz que não faz diferença, tem noção deste valor mesmo com a redução?

JMZ: Não tenho muita visão sobre os valores que vão dar à empresa. Se derem os valores de acordo com os documentos do governador do Cuando-Cubango, da declaração de reconhecimento de dívida, o montante é de 439,5 mil milhões de kwanzas referente ao fornecimento de bens diversos, que foi assinado em 21 de Junho deste ano.

V.E: Mas tem noção deste valor mesmo com a redução?

JMZ: Vimos que houve um erro muito exorbitante e ficámos satisfeitos com o que nos deixaram. Diz-se que “aquilo que cortaste na cobra é que é teu”. Não espero outra coisa

VE: Está satisfeito com a redução?

JMZ: Muito agradecido. Durante 29 anos à espera deste valor, se sai agora, com a idade que tenho, é de agradecer. O tempo que resta é pouco. Pelo menos, como lá um pouco e bebo lá um litro de vinho especial e fico satisfeito.

 

V.E: Mas este valor, mesmo com a redução, dá para comprar muitos litros…

JMZ: Para o bem dos jovens que estão a atrapalhar a movimentação das viaturas nas ruas da capital, posso empregar estes jovens na fazenda e ganham lá qualquer coisa até quando eu morrer.

V.E: Que tipo de produtos fornecia ao Governo?

JMZ: Caixões, bens alimentares, mobília. Forneci muita coisa no Cuando-Cubango.

V.E: E só prestou serviços no Cuando-Cubango?

JMZ: “Quando saí, em 1997, do Cuando Cubango, mudei-me para Luanda de 1998 até 2000. E tive intenções de me instalar no Kwanza-Norte e tirava madeira no Bengo”.

 

V.E: Depois de 2000 o que fez?

JMZ: “A empresa sempre trabalhou no comércio. Apesar de não ser a 100% por causa da mudança de capitais. Estamos a trabalhar, à espera do nosso governo para nos alavancar. O capital foi abaixo, mas continuo a pagar impostos. Neste momento, o nosso escritório está no Huambo. Estamos a trabalhar com uma padaria que também não dá lucros”.

VALOR Eco: Sabe que a PGR abriu um inquérito depois das notícias sobre a empresa e a validação da dívida?

JMZ: “Sim. Mas ainda não tenho nenhuma notificação. Fez bem. Estamos a redigir um documento para a P

V.E: Não teme nada?

JMZ: “Nada. Quem não deve não teme. Temos testemunhas e estão em vida. Não morreram”.

 

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