UNITA diz que Presidente angolano tem medo do povo

O líder da UNITA, maior partido da oposição, disse hoje, em Luanda, que o presidente do MPLA, partido no Governo, “tem medo do povo, que vai demonstrando saber ler e posicionar-se em defesa do seu interesse”.

Daniel Frederico

Lusa

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Adalberto Costa Júnior discursava na abertura da II reunião ordinária da Comissão Política da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), reunida para, nos próximos dois dias, analisar de forma minuciosa a situação do país e o programa anual do partido.

No discurso, Adalberto da Costa Júnior falou sobretudo das consequências da tentativa de manifestação, no passado sábado, que contou com o apoio da UNITA, e respondeu à intervenção de quinta-feira do Presidente angolano, João Lourenço, também líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), na IV sessão ordinária do Comité Central do partido.

“Angola testemunhou a saída à rua de organizações da sociedade, especialmente jovens empurrados pelo sofrimento e pela ausência de esperança, empurrados por mil promessas incumpridas, aos quais se juntaram cidadãos de diversas proveniências”, disse Adalberto Costa Júnior.

Neste encontro que reúne a comissão política da UNITA, o mais importante órgão deliberativo do partido, Adalberto Costa Júnior começou por assinalar que denunciava “o perverso agitar de fantasmas, para restringir as liberdades, para criarem medo às populações e restringirem a sua capacidade de optar”, e que “Angola está a regredir”.
“Digamos basta a esta desformatação”, acrescentou. “Deixemos os tempos do trungungu, da sociedade policiada, que todos os dias vemos renascer.

O líder da UNITA realçou ainda que as mais altas instâncias do país têm afirmado que “estes jovens não têm pensamento próprio, não lhes é reconhecida a capacidade de terem ideais e de não serem capazes de perseguirem causas próprias”.

Segundo o político, para o Governo a população que sai à rua e se manifesta, os jovens que têm a coragem de lutar por melhores condições de vida ou de exigir um calendário para a realização das autarquias, só podem ter vínculo à UNITA, ironizou.

A manifestação reprimida pela polícia, em cumprimento ao decreto que declara o estado de calamidade devido à covid-19, que, entre outras medidas, proíbe ajuntamentos de mais de cinco pessoas na rua, tinha como objetivo reivindicar melhores condições de vida e exigir uma data para a realização das primeiras eleições autárquicas, que estavam previstas para este ano, mas foram adiadas.

Para Adalberto Costa Júnior, o discurso de João Lourenço, foi de exclusão, de inimizade, e não construtivo, indicando ainda “uma grande impreparação em lidar com uma oposição, que lhe diga que as leis não são para serem geradas por conveniência e muito menos para limitar direitos constitucionalmente garantidos”.

João Lourenço reiterou no seu discurso o direito à manifestação, que fica temporariamente restringido para evitar a contaminação e propagação da pandemia do novo coronavírus no país, mas condenou a participação da UNITA no ato, atribuindo-lhe responsabilidade num possível aumento do número de casos.

Adalberto Costa Júnior disse que a UNITA tem apelado ao diálogo e à construção de bases sólidas e seguras de uma Angola reconciliada, inclusiva e moderna.

 “Ninguém tenha dúvidas que para se edificar essa grande obra” será necessária uma revisão da Constituição, prosseguiu.

Na sua intervenção, o chefe de Estado angolano garantiu que “a estratégia de tornar o país ingovernável, para forçar negociações bilaterais, no atual contexto político, em que as instituições democraticamente instituídas funcionam em pleno, não é concretizável”.

Sobre as eleições autárquicas, o dirigente da UNITA lamentou que hoje “ninguém conhece um horizonte temporal de compromisso”, reiterando que as autarquias são sim uma obrigatoriedade vital para a resolução dos problemas do povo.

“Um Governo patriótico, com vocação nacional, nunca olharia para a implementação das autarquias com antipatia, aliás, para um executivo sério, veria nelas um poder complementar, que o ajudaria a resolver os muitos desafios do país”, disse.

De acordo com Adalberto Costa Júnior, não há dúvidas que será necessário abraçar o diálogo e a concertação, sublinhando que não fala em “negociação”.

No plano económico, o presidente da UNITA o país tem como solução “estender a mão à mendicidade do FMI (Fundo Monetário Internacional) e aceitar todas as imposições que o FMI e demais doadores condicional as tranches de seus empréstimos”.

“Decorridos três anos da atual legislatura, Angola ficou mais pobre, porque a vida do angolano agravou-se cada vez mais em todos os setores sociais”, frisou, denunciando “o perverso agitar de fantasmas, para restringir as liberdades, para criarem o medo às populações e restringirem a sua capacidade de optar”.

O líder da UNITA apelou ainda à libertação dos mais de uma centena de manifestantes detidos desde sábado, e que estão em julgamento sumário, salientando que tem informações que o tribunal está a receber ordens superiores e pressão dos agentes da segurança do Estado, que têm permanecido na sala.

“Tirem-nos da cadeia e levem-nos para a escola. Tenho a certeza que enveredar pelo discurso truculento, arrogante, terá o efeito perverso de incitar de novo a uma nova e desnecessária onda de violência”, afirmou.

Nos protestos foram registados confrontos entre a polícia e manifestantes, caracterizados por arremesso de pedras, montagem de barricadas nas ruas de contentores e pneus a arder, reprimidos com gás lacrimogéneo, que resultaram em centenas de detenções, ferimentos de ambas as partes e a destruição de meios policiais.

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