Apesar do processo-crime general Dino encaixa cerca de 400 milhões de dólares ao vender acções da Trafigura

O general Dino, alvo de um processo-crime na PGR, vende participação na Trafigura por uma soma de quase 400 milhões de dólares. Empresa deteve durante anos o monopólio do fornecimento de derivados de petróleo a Angola.

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Repórter Angola com Agências

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O general Dino, alvo de um processo-crime na PGR, vende participação na Trafigura por uma soma de quase 400 milhões de dólares. Empresa deteve durante anos o monopólio do fornecimento de derivados de petróleo a Angola

Um negócio de 390 milhões de dólares. Foi este o valor que a empresa Trafigura pagou por acções que até então eram detidas por Leopoldino Fragoso do Nascimento, mais conhecido por general Dino, homem próximo do antigo Presidente de Angola José Eduardo dos Santos.

 

A compra, revelada pelo Financial Times na terça-feira (28), indicia que a empresa estará a tentar afastar-se da “entourage” de Dos Santos, depois de anos em que essa proximidade terá ajudado a empresa de importação de matérias-primas a praticamente dominar a importação de derivados de petróleo no mercado angolano.

 

A transação, que fez com que Dino deixasse de deter 15% da subsidiária Puma Energy e passasse a ter apenas 5%, teve lugar em Junho de 2020 e vem agora confirmada no relatório anual da Puma. Em Janeiro desse mesmo ano já circulavam rumores referentes a esse negócio, com fontes a garantirem à agência Reuters que ele iria ter lugar para tentar fazer com que a empresa se tornasse mais atractiva para novos investidores.

 

A um preço de 33 dólares por acção, a Puma comprou quase 12 milhões das acções do general Dino, que estava representado na empresa através da Cochan, que “deixa assim de ser um accionista significativo”, como pode ler-se no relatório a que o Financial Times teve acesso.

 

O esquema que permitiu ao general Dino deter uma participação de milhões na empresa suíça era complexo. A Cochan, detida por Dino, tinha uma participação de 15% na Puma, subsidiária da multinacional Trafigura — que mantinha uma rede de postos de venda de gasolina em Angola e detinha praticamente o monopólio de importação de combustível para o país, avaliado em cerca de 3,4 mil milhões de euros em 2018.

 

Angola necessita de importar praticamente todos os derivados de petróleo que consome, devido à sua fraca capacidade de refinação. Em 2014, a revista Foreign Policy confirmou que o general Dino era o último beneficiário da Cochan e que a sua participação na Puma estava avaliada em 750 milhões de euros.

 

Leopoldino Fragoso do Nascimento, antigo ministro e chefe da Casa de Segurança de José Eduardo dos Santos, sempre foi um dos homens de confiança do antigo Presidente angolano, a par do general Hélder Vieira Dias Júnior (mais conhecido por general Kopelipa) e do antigo vice-presidente Manuel Vicente.

 

Para o professor da Universidade de Oxford Ricardo Soares de Oliveira, a quantidade de acções detidas até então por Dino na Trafigura ilustram o quão importante era para a empresa a ligação com este homem-forte do regime.

 

“Dino não era apenas um intermediário. Ele, ou os interesses angolanos que representava, tornaram-se extremamente importantes”, afirmou o autor de ‘Angola: Magnífica e Miserável’ (ed. Tinta-da-China) ao Financial Times.

 

A decisão da Trafigura de comprar a participação do general surge na sequência das decisões do Presidente João Lourenço de impor mudanças neste mercado após a sua chegada ao poder. Em Janeiro de 2018, a Sonangol abriu um concurso para a importação de combustível, pondo assim fim ao monopólio da Trafigura no país. A Total e a Glencore acabaram por ser as vencedoras e a Trafigura viu-se afastada.

 

Questionada pelo Financial Times sobre o negócio milionário de compra das acções de Dino, a Trafigura reencaminhou a questão para a subsidiária Puma. Esta declarou ao jornal que a empresa está “confortável” e que considera que pagou o valor adequado pelas acções: “A avaliação utilizada é pré-Covid e é consistente com os 49,3% da Puma que a Trafigura detinha à altura”, acrescentou a empresa. O Financial Times tentou também contactar o general Dino, mas não obteve qualquer resposta.

 

Recorde-se que o antigo chefe das Comunicações do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, general Leopoldino do Nascimento “Dino”, assim como o ex-ministro de Estado e chefe da Casa Militar, general Hélder Vieira Dias Júnior “Kopelipa”, entre outros crimes, são alvos de um processo-crime que decorre os seus trâmites na PGR, acusados de peculato, branqueamento de capitais e burla, num processo relacionado com uma linha de crédito de 2,5 mil milhões de dólares concedida pelo Banco Industrial e Comercial da China a Angola. Dino e Kopelipa são suspeitos de se apropriarem destes fundos por intermédio da empresa China International Fund (CIF), além de terem igualmente beneficiado de outros negócios no âmbito do extinto Gabinete de Reconstrução Nacional (GNR).

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