Estádio do Chiazi – da imponência ao abandono

Quando, em 2009, se deu por concluído o Estádio do Chiazi, para albergar o Campeonato Africano das Nações em futebol (CAN 2010), nada fazia crer que, 11 anos depois, a infra-estrutura viesse estar em estado de total abandono e à mercê do próprio destino.

Angop

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Construído em tempo recorde de 18 meses, o recinto, onde evoluíram estrelas como os ivoerenses Drogbá, Salomoun Kalou, Kolo e Yaya Touré, os ganenses Gyan, Mensah, Jordan e Andre Ayew vem se degradando por falta de verbas e política de manutenção e conservação.

O problema da degradação começou um ano depois da inauguração e, desde então, o estádio vem perdendo o “brilho”, a ponto de ter hoje uma imagem desoladora, com a relva transformada em capim seco e as estruturas físicas a clamarem por “salvação”.

Em concreto, o estádio, localizado nos arredores da aldeia de Chiazi, cerca de 12 quilómetros a norte da cidade de Cabinda, enfrenta problemas diversos. A degradação da relva é um dos mais notórios.

Não menos acentuado e com sinais claros de degradação avançada estão a zona Vip, dos camarotes, as salas de conferências e de controlo anti-doping, bem como a sala de primeiros socorros e os balneários, que precisam de recuperação urgente.

Trata-se de um estádio que conferiu dignidade à população de Cabinda em 2010, orçado em USD 85 milhões, mas que sofre pela falta de projectos sustentáveis de manutenção.

Desde a altura do CAN’2010, em que acolheu o grupo B, com as selecções da Côte d’Ivoire, Ghana e Burkina-Faso (o Togo de Emmanuel Adebayor desistiu), poucos ou quase ninguém previa que, em escasso tempo, o Chiazi fosse virar um “monstro” quase abandonado.

Desgastado pela gestão deficitária e já sem o brilho de outros tempos, a infra-estrutura ficou sem condições técnicas para albergar jogos oficiais.

A última partida decorreu em 2019, quando o Sporting de Cabinda foi goleado pelo ASA (0-6), para a 29ª jornada do Campeonato Nacional da I Divisão “Girabola”.

Conforme fontes contactadas pela ANGOP, para voltar a acolher partidas de futebol, até as de carácter internacional, o imóvel, com capacidade para 20 mil espectadores, precisa de pelo menos Akz dois milhões e 500 mil/mês, a fim de fazer trabalhos de manutenção.

Em declarações à ANGOP, a propósito da série de reportagens sobre as infra-estruturas desportivas do país, o secretário provincial da Juventude e Desportos, Óscar Dilo, disse que a degradação do Chiazi se deve “à falta de fundo mensal ou anual para a manutenção”.

Segundo o responsável, a situação tem sido abordada entre o governo local e o Ministério da Juventude e Desportos, mas até à data não se vislumbra solução, sugerindo, por isso, uma administração autónoma para se poder inverter este quadro.

Reafirmou a necessidade de um orçamento mensal de cerca de Akz dois milhões e 500 mil, para manter intacto o campo e as suas dependências, de modo a que possa voltar a acolher jogos dos campeonatos provinciais, nacionais e internacionais.

Intervenção do Governo

Óscar Dilo recorda que, após os apelos para salvar o estádio, o Ministério da Juventude e Desportos cabimentou AKz mais de 31 milhões, entre Julho de 2018 e Setembro de 2019, que serviu para a recuperação de pontos tidos como prioritários.

Com aqueles fundos foram realizados trabalhos de recuperação da relva, dos balneários, substituição de mosaicos nas salas Vips e de conferências de imprensa, reparação dos geradores, do sistema de rega e das máquinas de tratamento da relva.

Antes, um estudo para a recuperação do imóvel, ainda com poucas áreas afectadas (balneários, bancadas, relva e zonas Vips), apontava para um orçamento menor de AKz cinco milhões.

O trabalho devia ser realizado por uma empresa chinesa de construção civil, apurada em concurso público, mas o projecto ficou inviabilizado, sem se conhecerem as razões de fundo.

Desde então, com a ausência de verbas para os cuidados que se impunham, os transtornos cresceram e o Estádio do Chiazi voltou a clamar por obras de beneficências, agora com maior nível de intervenção.

Edificado numa área de 36.868 m2, o imóvel conta com zonas Vips para 323 lugares, 31 camarotes com capacidade para 604 lugares, sete elevadores, sala de conferências, quatro balneários, duas salas de controlo anti-doping, 18 salas para primeiros socorros, 23 lojas e igual número de restaurantes.

Cidadãos lamentam

A situação degradante do estádio deixa revoltada a massa associativa e os agentes desportivos de Cabinda, como José Sami Muai, dirigente do Sporting local, que diz não perceber as razões do abandono desta importante infra-estrutura desportiva.

Do seu ponto de vista, trata-se de uma situação de “falta de vontade e de amor ao desporto na província de Cabinda, em particular, e no país, em geral”.

No seu entender, a situação do estádio não deve continuar a ser observada, pelas entidades de direito, de “forma impávida e serena”. “Urge a tomadas de medidas, para que o recinto volte a ser valorizado”, diz.

O dirigente defende a realização de um concurso público para rentabilizar o estádio, preferencialmente por um empresário de reconhecida capacidade em gestão.

Outra alternativa, para José Muai, seria a criação de fundos para a preservação e manutenção, num esforço conjunto entre as entidades locais e o Governo central.

Já o engenheiro Juliano Capita, da secretaria provincial das Obras Publicas em Cabinda, valoriza o empreendimento e lembra que foram empreendidos esforços do Governo para que a província ganhasse um estádio de dimensão internacional.

“A manutenção do estádio é fundamental para evitar que a sua vida útil seja encurtada devido a problemas na sua estrutura principal”, exprime.

O antigo praticante André Binda alerta para a importância social do estádio, na perspectiva da ocupação dos tempos livres da população local, sobretudo da juventude.

Segundo o também ex-treinador do FC de Cabinda, a adesão dos amantes da modalidade e não só ao estádio ajudava a tirar jovens da criminalidade, pelo que aconselha a sua rápida recuperação.

Engenheiro e arquitecto de construção civil, Juliano Capita afirma que a avaliação que faz do estádio “pode ser comparada a uma patologia”.

“O Chiazi sofre da patologia de falta de manutenção, facto que causa graves danos estruturais parciais no seu esqueleto”, afirma.

Explica que nas actuais condições, os problemas que podem surgir decorrem da infiltração de água e corrosões que comprometem o edifício, com destaque para as placas e pilares de sustentação.

Adverte para o facto de uma infra-estrutura como o Estádio de Chiazi, não utilizada, propiciar a degradação progressiva da estrutura, observando-se também consequências como a alteração negativa da vida útil, ou seja, durar menos tempo que o previsto.

No âmbito desta série de reportagens sobre as infra-estruturas desportivas do país, a ANGOP procurou, sem sucesso, ouvir a versão da actual gestão do estádio.

Diante do actual quadro, várias vozes se levantam e várias questões de fundo ficam no ar, entre desportistas, massa associativa, dirigentes desportivos e amantes do futebol em Cabinda: afinal, o que se espera do Estádio de Chiazi daqui para frente?

Para quando a actual gestão e as autoridades do Governo vão “travar”, em definitivo, a onda de degradação da infra-estrutura e devolver o brilho a um estádio que consumiu verbas do erário e foi referência durante o CAN, decorrido de 10 a 31 de Janeiro de 2010?

Mais do que lamentações e promessas, o povo de Cabinda espera acções concretas. Mas, enquanto elas não surgem, fica o consolo de um velho ditado popular: “enquanto há vida, há esperança”.

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