Cabo Delgado: Terrorismo não vai parar projetos de gás, diz analista

O analista Fernando Cardoso acredita que ataques não vão travar os projetos de exploração de gás em Moçambique. Para o especialista, os movimentos terroristas são uma "contrarresposta" à gestão de Maputo.

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Os grupos de terroristas que têm protagonizado ataques armados em Cabo Delgado efetuaram, pelo menos, dois ataques próximos dos megaprojetos liderados pela francesa Total no final de dezembro.

Numa nota à imprensa, a Total informou esta segunda-feira (04.01) que reduziu temporariamente a sua força de trabalho no local do projeto, em resposta ao “ambiente prevalecente”, acrescentando estar em “contato permanente” com as autoridades moçambicanas. “O ambiente operacional permanece em avaliação contínua e a Total mantém uma comunicação constante com as autoridades moçambicanas sobre o assunto”, frisou a empresa.

O projeto é o maior investimento privado em África, da ordem de mais de 15 mil milhões de euros.

A violência armada em Cabo Delgado começou há três anos e está a provocar uma crise humanitária com mais de duas mil mortes e 560 mil deslocados, sem habitação, nem alimentos. Algumas das incursões passaram a ser reivindicadas pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico desde 2019.

A DW África entrevistou Fernando Cardoso, especialista em assuntos africanos, a propósito dos mais recentes desenvolvimentos em Cabo Delgado.

DW África: A crescente aproximação dos terroristas ao maior investimento privado em África pode comprometer os projetos de gás?

Fernando Cardoso (FC): Na minha perspetiva não, pelo menos neste momento. O que a Total fez foi acionar um protocolo de segurança em que há uma retirada do pessoal trabalhador para zonas mais seguras, neste caso para a capital da província [Pemba], para permitir que as Forças Armadas moçambicanas que estão no terreno – possivelmente com a colaboração de forças de segurança da própria empresa – façam operações de limpeza do perímetro de Afungi. Convém clarificar que aquilo que foi atacado não foi a área de trabalho propriamente dita, mas sim o perímetro de segurança de Afungi, mais em concreto, duas aldeias que serviam de local de residência de trabalhadores e familiares de trabalhadores.

DW África: A consultora Fitch Solutions entende que os ataques continuam a ameaçar a construção dos projetos de gás e futuros investimentos… Não partilha desta previsão da Fitch Solutions?

FC: Vou dizer-lhe porque é que não partilho. Desde o início deste mês, houve um aumento da capacidade operacional de forças especiais moçambicanas no terreno que provocaram alguns dissabores e recuos de forças jihadistas. Essas forças especiais moçambicanas ocuparam um centro nevrálgico estratégico que estabelece as comunicações entre o norte e o sul da província. Do meu ponto de vista, o que está a acontecer é uma contrarresposta e uma guerra de movimento por parte das forças jihadistas.

A segunda razão pela qual não partilho dessa opinião tem a ver com o facto de a Total ter tomado uma decisão final de investimento que envolve ao longo do tempo cerca de 20 mil milhões de dólares (o equivalente a 16 mil milhões de euros). Uma decisão final de investimento só é tomada com dois pressupostos básicos: o primeiro é que existam compradores seguros para o gás que vai ser produzido; o segundo é que exista a capacidade de criar condições de segurança para que o projeto seja desenvolvido.

DW África: As Forças de Defesa e Segurança (FDS) têm relatado sucesso nas investidas contra os terroristas. Ainda assim, os insurgentes conseguiram chegar às imediações do projeto da Total. É caso para se relativizar as conquistas do Exército moçambicano?

FC: Claro. São conquistas parciais, temporárias… Ninguém consegue prever o futuro. O que podemos dizer é que houve uma mudança de atuação e um posicionamento ofensivo por parte das forças armadas moçambicanas que estavam na defensiva. É claro que não conseguimos prever o futuro.

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